A Angústia
É uma emoção? É um sentimento? É uma premonição? É um pensamento? Não sei.
Sei que a angústia nos aparece ao longo da vida, múltiplas vezes, pelos acontecimentos que nos rodeiam, pela falta de saúde, pela ausência de afetos, pela perda irremediável de alguém.
É no entanto tão sentida, quanto indefinível: “ Sinto não sei quê, aqui no meu peito, que não me deixa respirar livremente”. Muita gente define assim a angústia, por vezes como presságio, outras vezes como facto vivido.
Mas a angústia vive connosco desde muito tenra idade e permitam-me que seja um bocadinho exagerada:
Aquele choro repetido, forte, dum recém- nascido, para além de afirmar: sim, nasci, estou vivo, respiro bem, os meus pulmões vibram. No meu modo de ver, é também o primeiro grito de angústia de quem deixou um ninho acolhedor, macio, flutuante e repentinamente se vê num mundo estranho, luzente e agressivo.
Depois vem a angústia do primeiro dia de escola, o olhar dos colegas, o acolhimento do educador, o início da socialização; a exigência do convívio no recreio, a aceitação ou rejeição.
O começo da autonomia , a exigência da aprendizagem, os testes, as emoções à flor da pele.
Será que pais, educadores, o contexto escolar, o próprio Ministério dará conta destas angústias, perdidos que andam nas suas próprias?
Não estamos em época própria para determinadas sensibilidades…
Por sua vez os pais de hoje com a necessidade e esforço do trabalho ou da falta dele, com os afazeres de casa, o equilibrar das despesas, o correr para os transportes, com a falta de tempo para o Tempo, chamam-lhe “stress”, mas é angústia pura.
E quando se corre para o hospital com alguém muito doente e não se recebe a tempo e horas o benefício ( obrigação) de se ser atendido com respeito e humanidade; quando não se sabe o que tem e ninguém nos vem dizer NADA; eis a mesma angústia a golpear-nos.
Quando se estuda, quando se julga que uma capa e batina é o passaporte de um futuro promissor e tudo desaparece num trágico instante, deve ser uma angústia muito próxima da loucura. Quando se encontra um mundo de trabalho completamento fechado, sem segurança, sem hipóteses, aí o mundo se desmorona…Aí vem ela…
Mas a angústia das angústias é quando nos arrancam um ser querido e o levam para nunca mais…Aí é incomensurável e chega à dor.
Não pretendo entristecer ninguém, até porque eu vivo e vivi muitas angústias, mas vivo para a alegria porque desde há muito tempo tenho calcado as minhas angústias com quanta força tenho. Queria apenas salientar o quanto vale a palavra certa, o ombro amigo, um bom e
sensível acompanhamento.
E às pessoas insensíveis, superficiais, dedico-lhe a minha enorme indiferença, com um sorriso de circunstância.
03/03/ 2014
Beatriz Correia
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