segunda-feira, 4 de março de 2013

Grândola


     
Ontem vivi um dia, que não esperava viver. Sou daquelas pessoas felizes, que assistiram ao dia em que se cantou pela primeira vez Grândola , Vila Morena. Foi a abertura de uma janela, que nunca se abrira.
Não sabia nada de política; não nos deixavam saber. Se nas ruas de Lisboa parassem duas ou mais pessoas a conversar eram logo convidadas a dispersar; se nos livros apareciam textos como o da Maria da Várzea, eu como professora apolítica, não percebia a sua abrangência como facto social. Se a Maria vinha rodeada de filhos, com o alguidar da roupa lavada à cabeça, um filho ao colo e outro provavelmente na barriga, isso era vulgar.
Quando se cantou a primeira vez a Grândola comecei a ver que algo estava errado.
Vejo então expandirem-se os meus horizontes como mulher, como educadora e como cidadã; nessa altura muitas perguntas surgem no nosso espírito: porquê a mulher só tinha uma escolaridade até ao terceiro ano? Porquê a professora para casar tinha que pedir autorização ao Ministério? Porquê aqueles cartazes, mapas e fotografias na parede do quadro? Porquê? Porquê? 
Zeca Afonso perdura no tempo, porque era culto, simples e até humilde, na sua genialidade. Com ele veio a euforia: os cravos, a alegria, a fraternidade, os cantores de intervenção, a tropa que ia fazendo descambar para caminhos que não queríamos.
Mas, nessa altura, já sabíamos o que queríamos!..
Sobre o ponto de vista pedagógico foi, para mim, um período áureo. Foi uma revolução de métodos e de hábitos, que me encantaram: ensinava brincando, aprendia tanto e tanto, meu Deus!

FOI A REVOLUÇÂO DOS CRAVOS!...ÙNICA NO MUNDO!...

O Zeca não pôs as suas canções ao serviço do desespero. Cantou-as para a alegria deste Povo, historicamente heroico, estoicamente corajoso e unido: o 1 de Maio de 74 assim o demonstrou. As pessoas, de riso aberto de esperança, falavam nas ruas sem se conhecerem, -apertavam-se as mãos, acenava-se; um clima de irmãos.
“ Amai-vos uns aos outros”, naquele dia Jesus Cristo sorriu.
Ontem eu vi renascer o Zeca Afonso e a Grândola dos velhos tempos. A canção dos antigos passou para os lábios dos jovens, passou para outros países. A canção ouviu-se em muitas terras deste mundo louco.
O Zeca não morreu…Está vivo na alma portuguesa .Só que ele não gostaria de ver tantas caras tristes, tantos rostos fechados, tantos cartazes insólitos e algumas lágrimas correndo.
Também tenho a noção, que os responsáveis políticos, banqueiros e oportunistas, observam tudo isto com um sorriso de troça.
CUIDADO!...Isto não mata mas amolenta e magoa. É bom não esquecer que cada um de nós tem um voto na mão.


AGORA CANTÁMOS;VAMOS VER DENTRO DE POUCO TEMPO, QUEM DANÇA.


2 comentários:

  1. E a minha grande mágoa foi não ter estado em Portugal para, nessa oscasião, também gritar todas as Grândolas que os cravos mereciam. Tive de seguir à distância o que se passava, e quanta ansiedade pelo bom êxito!

    Óptimo texto!
    Um abraço grande
    Alda

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  2. Fantastico artigo. Adorei ler e deploro,o facto de nao estar a viver em Portugal durante a revolucao dos cravos. Estava no Brasil , mas ouvia os comentarios do pessoal que chegava de Portugal. E triste ver como o pais esta no momento. Mas o povo vai decidir e num pais civilizado tem que ser com eleicoes. Infelizmente as vezes as coisas tem que ficar pior para comecar a melhorar.

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