quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Vergonha


          


              Muitos velhinhos são encontrados mortos nos seus apartamentos.
              As notícias chegam-nos como um baque surdo, como uma espadeirada nas costas e direita ao coração. Sente-se vergonha, sente-se raiva, revolta, uma tal profusão de sentimentos que nos atordoa.
É que embora não saibam, não sou de esquerda (apesar de o pensarem, os pobres de espírito) nem sou da direita, do que ninguém tem dúvidas. Estou-me nas tintas para esses clubismos políticos.
Sou pela solidariedade, sou pela tolerância, sou principal e fundamentalmente pelo “Humanismo”. Detesto os políticos, detesto os fanáticos; neste momento detesto o mundo em que vivemos. Como isto é possível? A que ponto chegou a insensibilidade nas pessoas, nas instituições, nas autoridades, nos condomínios, nos vizinhos?... Salvaguardando o zelo das visitas e conversas que ultimamente as autoridades têm feito, tal era a escandalosa situação, assim como a distribuição de mecanismos de ligações directas a meios de auxílio, os tristes casos continuam!...
Setenta pessoas no Hospital Amadora-Sintra, abandonadas ou com medo de irem para casa… Somem-se-lhe agora os idosos dos outros hospitais. É um escandaloso facto.
Como este, há outros casos mais.
E o cidadão passa indiferente, impassível, como se fosse um caso de somenos.
Apertam as mãos na cabeça porque há mais idosos do que jovens de 15 anos. E que culpa têm os idosos? Que culpa têm eles de viver? Não convidam os jovens a emigrar? Quem fica?
Que culpa têm eles deste País ser um país de desperdícios. Desperdiçam o tempo, desperdiçam as relações humanas, desperdiçam o trabalho e … desperdiçam “o saber de experiência feito”. Cada velhinho tem consigo um manancial de conhecimentos, de valências, de histórias que são esquecidas e assim transformam um tesouro de vidas, tornando-as amorfas, sem entusiasmo, sem alegria e sem objectivos. Nos lares, nos hospitais, em casa, sozinhos, todos sofrem do mesmo mal… são desprezados. Que tempo é este em que desagregam completamente as famílias? Algumas há, que mantêm as suas tradições. Algumas há, que fingem que as mantêm. A maior parte diluiu-se, mantendo-se afastada, esboroou-se porque estar com velhos não é uma  coisa agradável. É muito mais divertido estar com o cão ou o gato.
O ser humano chegou nos últimos anos a esta conclusão: valem mais os animais do que o pai ou a mãe.
Doentes, desprotegidos, sós, afectivamente postos de parte. O que lhes resta? Morrer no chão duma cozinha e esperar nove anos que dêem por isso?..
Desgraçada será a geração que esquece quem os trouxe no ventre ou quem tem nas veias sangue do mesmo sangue…
A revolução tecnológica está aí, em força, tão necessária e útil quanto perigosa; mas nenhuma nação, por mais tecnicista que seja, poderá avançar calcando valores, esquecendo afectos, materializando tudo e, olhando pelos seus velhos, com toques de dedos em telemóveis.
Amor é amor e tem de ser de olhos nos olhos, com afagos, presença e carinho. Portugal está a perder imensos valores, a perder calor humano, simpatia natural… Era o que o distinguia de outros países!...

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